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O choro contagiante do “Só Alegria”

Na coluna da semana passada, numa tentativa de prolongar os bons momentos vividos em Jericoacoara, durante a sexta edição do Festival Choro Jazz, eu comentei o CD do Duo Taufic. Seguindo nesta tentativa, para que as lembranças não se apaguem inteiramente, rememorarei o show do quarteto Só Alegria, que tocou músicas do seu primeiro CD, cujo título traz o nome do grupo estampado na capa: Só Alegria (independente).

Os seus integrantes Celsinho Silva (pandeiro e percussão) – ele que é filho de Jorginho do Pandeiro, um exemplo de ritmista –, Eduardo Neves (flauta, pícollo, saxofones tenor e soprano),  Luis Barcelos (bandolim de dez cordas e violão tenor) e Rogério Caetano (violão de sete cordas de aço), selecionaram para sua apresentação na pracinha de Jeri todas as onze faixas do álbum recém-lançado, e mais outras duas: “Bole, Bole” (Jacob do Bandolim) e “Caminhando” (Nelson Cavaquinho).

Uma digressão: impressiona a capacidade que têm os chorões para dar título às suas composições – na maioria das vezes, eles traduzem fielmente o conteúdo dos choros e congêneres. Exemplos? Vamos lá: “Chorando Baixinho” (Abel Ferreira), “Assanhado” (Jacob do Bandolim), “Espinha de Bacalhau” (Severino Araújo).

Com o Só Alegria, a tradição dos títulos autoexplicativos se mantém: antes mesmo de ouvir “Criançada Reunida” (Rogério Caetano), “Melancolia” (Luis Barcelos), “Minha Valsa Triste” (Luis Barcelos), “Só Alegria” (Celsinho Silva), por exemplo, já dá para anteouvir o que ainda está para ser escutado.

Uma curiosidade: durante a apresentação do Só Alegria, coube ao bandolinista Luis Barcelos dizer alguma palavras sobre o novo disco. Ele não teve dúvidas, citou suas duas músicas, “Melancolia” e “Minha Valsa Triste” como não tendo nada a ver com o título do CD, Só Alegria, motivando cúmplices sorrisos na plateia. Mas o que importa é que o trabalho resultou num discaço.

E é como exclamou o grande Laércio de Freitas, que assistia o show ao meu lado: “Esse ‘Só Alegria’ não é fraco, não”. De fato, maestro, esses jovens chorões são para serem ouvidos em clima de festa total, tamanha é a capacidade que têm de passar a alegria que sentem ao tocar.

A cada chorinho, a cada valsa, a cada uma das músicas compostas pelos quatro bambas, fortalece a certeza de que o sopro de Eduardo é soberano; que o pandeiro de Celsinho é contagiante; que o sete de Rogerinho é um chamamento à satisfação; e que o bandolim de Luis é digno de pertencer à nobre linhagem de um Joel Nascimento ou de um Rafael Rabelo.

Finda a audição do álbum do Só Alegria, vejo ressurgir a imagem sonorizada e a atmosfera do ambiente na pracinha de Jericoacoara, sempre varrida pela ventania cultural que faz da vila um oásis. Uma fato vivido a partir de um sonho que teve Capucho, um cara arrojado que junta instrumentistas e faz com que eles e o povo presente nos shows, pensem juntos – e é aí que a música popular brasileira vira uma alegre realidade.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

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