Menu

A grandeza do mestre

No final do ano passado, aqui no Caderno 2, eu descrevi o que presenciei durante a sexta edição do Festival Choro Jazz de Jericoacoara. Hoje volto para falar do desfecho do evento: João Donato, o grande homenageado pelos seus 80 anos, fez  O repertório de sua apresentação baseou-se num CD agora relançado: Live Jazz in Rio vol. 2 – O coro tá comendo (Discobertas).

Nele, acompanhando João

Donato, estão Luiz Alves (contrabaixo), Ricardo Pontes (sax e flauta) e Robertinho Bem, acho que não se deve falar sobre um mestre sem antes ao menos tentar advinhar a sua personalidade: um menino bagunceiro de marca maior quando ao piano, mas tímido como ele só quando longe de seu instrumento. Assim o vejo.

Ao compor, é como se criasse células melódicas, cantarolasse-as sobre harmonias aparentemente simples, às vezes repetindo-as num suingue adoidado e mântrico, que resulta não em música, mas em música de João Donato – um estilo.

Seu piano tem jeitão inconfundível. Mesmo a sua voz, que não chega a ser de um virtuoso do bel canto, traduz fielmente o que se passa na cabeça deste criador de requintes insofismáveis, compositor criativo, pianista talentoso. Um cara que, expressando-se de tantas e tais formas musicais, além de ser um músico sui generis, figura entre os maiores compositores brasileiros. João Donato é a exata e mais acabada tradução da qualidade da nossa música: ele é imenso, ainda que sua personalidade o leve a quase camuflar tal predicado.

Sempre acompanhado por músicos que, além de igualmente virtuosos, sacam como poucos a sua grandeza, o palco é o trampolim de João Donato. E é saltando dessa plataforma mágica que o mestre alça voo para prover sua genialidade musical.

O CD se inicia com uma de suas composições bastante conhecidas, “Minha Saudade”, de João Donato e João Gilberto – que dupla, hein?! Donato segura a melodia no piano. Logo o sax de Ricardo Pontes vem para juntos repetirem a levada.

O piano retoma o solo. A bateria de Robertinho Silva e o baixo de Luiz Alves pulsam o samba. O sax improvisa. Logo a seguir, o piano também se esbalda numa primorosa sequência de compassos. Diferentemente de quando só percute as notas da melodia, passa a ser ouvido com acordes soando notas em blocos. A bateria faz um curto improviso, recurso este logo assumido pelo baixo. O cowbell da bateria soa. A seguir, o piano volta a tocar a melodia – na primeira vez em uníssono com o sax, depois, sozinho. Todos voltam a se juntar... Fim. Meu Deus!

Gravado ao vivo, ouvem-se aplausos calorosos. Reação que acende o palco, transformando-o numa festa íntima, em que os convidados se divertem tocando.

Seguem-se dois bons temas instrumentais (ao todo são quatro). Em “Rio Branco” (JD), o piano começa “comentando” a melodia e logo o baixo (suingado) e a bateria (de levinho) se achegam, antecedendo a flauta (soando bonito). Já em “Na Barão de Mesquita” (JD e Paulo Moura), um samba, o piano e o sax tocam células harmônicas que se repetem e contagiam o suingue formado pelo conjunto baixo e O som ainda rola em outras oito músicas de Donato. Ao final, solidifica-se a certeza de estarmos diante de um músico prodigioso. Um sujeito que tem a generosa capacidade de, mesmo produzindo obras sofisticadas, fazer com que soem simples.

Assim, permitem que os fãs amem mais a sua música e possam ainda mais curtir seu Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4.

voltar ao topo