Menu

A longa estrada de Tibério Gaspar Destaque

A longa estrada de Tibério Gaspar

Compondo desde os anos 1960, Tibério fez-se caminhante. Munido de papel e caneta, esse atento e  irrequieto cidadão caminha registrando suas impressões sobre a vida e o mundo em que habita. Desses registros nascem canções que expõem sua alma de Menestrel que enxerga na música uma função social transgressora.

Tibério guarda boas lembranças do início do seu caminhar – como o movimento musical Toada Moderna, iniciado no final dos anos 1960, do qual ele foi um dos elaboradores. Segundo ele, no final dos anos 1960, apesar de existir uma extensa lista de músicas de enorme sucesso com a cara do Toada Moderna, como “Sá Marina” (Antônio Adolfo e TB), “Viola Enluarada” (Marcos e Paulo Sérgio Valle), Travessia” (Milton Nascimento e Fernando Brant) e “Andança” (Danilo Caymmi, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós), o movimento não obteve reconhecimento. Ainda segundo TG, todas são músicas com “a essência, a linguagem da música interiorana do sudeste”.

Sua arte caminha de braços dados com a disposição de ser um veículo que transporta belezas, tristezas e utopias. Alma aberta à gente do povo, mas fechada aos que exploram seus semelhantes. Em sua caminhada, TG buscava inspiração nas gentes com quem topava. A elas entregou sua arte.

A música e os direitos dos músicos são a sua vida. Tibério está sempre disposto a batalhar por ela e por eles, e o faz com arrojo. Às vezes de modo ríspido, noutras, ponderado, mas sempre vibrante. Pode-se até não gostar do jeitão dele, mas não dá para desprezar sua disposição para a briga. É um combatente que acredita lutar o bom combate... E há de se reconhecer que suas composições têm qualidade e que sua vontade de contestar é elogiável.

Tibério lança agora Caminhada (independente), seu segundo CD autoral. Nele, letras confessionais representam sua força, como, por exemplo a de “A Voz da América” (Nonato Buzar e TG): Vem nos versos de Neruda/ No mistério inca/ Nos pés de Pelé/ Tá na cara de Guevara / Tá na nossa cara/ Nuestra admiración por Fidel/ Ah! Tanto céu (...).

Ou de “Caminhada” (Antônio Adolfo e TB), sua primeira música, gravada em 1967: (...) Mesmo sofrendo na caminhada/ Eu sigo na madrugada, choro.

E de “Companheiro” (Naire Siqueira e TG): (...) Rasgue as coisas velhas da lembrança/ Seja um pouco de criança/ Faça tudo que quiser/ E cante que é bom viver.

Ou ainda de “Dança Mineira” (Aécio Flávio e TG), a melhor música do disco: (...) Dança mineira/ Rainha do conga/ Entra na dança/ Pra dança te pegar.

Coroando, temos “Vitória do Bem” (Tibério Gaspar): Viver é tão simplesmente/ Sentir esse amor geral/ Que nasce naturalmente da gente/ Louvando o que essa vida tem/ Acima do bem e do mal (...).

Versos criados ao caminhar pela estrada e que lentamente foram agregados à bagagem do compositor, tornando-se seu alimento, sua água. Ao cantador pouco importa acumular riquezas, a ele basta o saber e a tradução em música de tudo o que observa por onde passou e passará.

Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4

Última modificação emTerça, 15 Setembro 2015 08:42
voltar ao topo