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A Flip da crise e dos sonhos Destaque

A Flip da crise e dos sonhos

Uma celebração da literatura, a Festa Literária de Paraty (Flip) nunca foi planejada para movimentar a indústria do livro.  Incentivo à leitura e proliferação de eventos similares em todo o país foram os frutos colhidos pela Flip, que chega a seu décimo quinto ano financiada por apenas um grande patrocinador (o banco Itaú), que reduziu seu investimento a cerca de metade dos recursos destinados à festa em 2016. 

A Flip fala sobre cultura num Brasil cujas verbas públicas sofrem cortes frequentes em áreas essenciais para a qualidade de vida – saúde, educação, proteção ao trabalhador e distribuição de renda. Apesar da crise generalizada, o mercado do livro registrou aumento de 6,81% nas vendas no varejo, em comparação com os primeiros seis meses de 2016 – uma diferença de mais de um milhão de exemplares adquiridos. Mesmo assim, ainda não é momento para comemorações, já que o crescimento do desemprego deve prejudicar consideravelmente o consumo em todos os setores.

É neste cenário de dificuldades políticas e financeiras que a Flip conseguiu ser montada, sob curadoria da jornalista Josélia Aguiar, trazendo mais escritores negros e do sexo feminino, entre 46 autores convidados. Nas 22 mesas de debate, pela primeira vez, as mulheres estão em maioria. E o autor homenageado é Lima Barreto, figura emblemática como representação das minorias brasileiras, cujo talento foi percebido por Monteiro Lobato.  Uma nova edição de A correspondência entre Monteiro Lobato e Lima Barreto (Verso Brasil, R$ 55,90), de Edgard Cavalheiro, levanta as biografias dos dois escritores, que tinham, em comum, o amor pelas letras. Lobato, que não se considerava um literato, admirava abertamente o talento de Barreto, lançando seus livros, insistindo que os fracassos de vendas se deviam a capas mal desenhadas. Com 30 fac-símiles de cartas, cartões e bilhetes trocados entre 1918 e 1922, o livro revela detalhes dessa  amizade firmada epistolarmente entre dois homens de origens diferentes, mas que se encontravam no interesse genuíno pela literatura.

Entre os convidados estrangeiros da Flip deste ano está a  jornalista argentina Leila Guerriero, que transformou uma reportagem na bela reflexão sobre os sonhos de homens que disputam uma competição de dança folclórica no interior de seu país. Uma história simples (Record, R$ 37,90) fala da preparação de Rodolfo González Alcántara no ano em que ganha o Festival Nacional de Malambo, em Laborde, um povoado de seis mil habitantes, cuja única atração turística é a competição. Uma vez sagrados campeões, os dançarinos passam a trabalhar como treinadores de jovens bailarinos e vivem do prestígio de um título ao qual jamais voltarão a concorrer. Outro destaque da Flip que fala em paixões é Dias Bárbaros (Intrínseca, R$ 59,90), autobiografia que deu ao americano William Finnegan o Pulitzer em 2016. Correspondente de guerra, Finnegan rodou o mundo em busca das melhores ondas para o surfe.    


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