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Sobre mulheres das letras Destaque

Sobre mulheres das letras

Há cerca de um ano, por iniciativa da escritora Maria Valéria Rezende, foi criada uma comunidade no Facebook, o Mulherio das Letras, para discutir formas de ampliar a visibilidade das escritoras no mercado editorial brasileiro. Em outubro, o Mulherio fez seu primeiro encontro, em João Pessoa, lançando duas antologias com a produção literária de algumas das mais de 5 mil participantes do grupo. Contistas e cronistas foram reunidas em quatro volumes artesanais da Mariposa Cartoneira, um coletivo que confecciona livros com capas de papelão.

Muitas das participantes do grupo não encontram dificuldade na publicação de obras por serem mulheres. “O difícil é a divulgação”, diz Maria Valéria Rezende, que está num patamar diferente das companheiras de articulação. Entre os mais recentes prêmios literários que recebeu estão o São Paulo Literatura e o Casa de las Americas por Outros cantos (Alfaguara, R$  29,90), que tem como protagonista uma professora em viagem pelo sertão do Brasil – uma experiência conhecida pela autora, que é freira e trabalhou com educação de adultos.

Outubro também ficou marcado pela partida de uma das mais celebradas escritoras e ilustradoras do País, a mineira Angela-Lago, que faleceu quando se recuperava de uma cirurgia. Outra colecionadora de prêmios, principalmente por sua obra destinada ao público infanto-juvenil, Angela começava a se voltar para a literatura adulta, juntando em livro pequenos textos que publicava nas redes sociais, além do belíssimo O caderno do jardineiro (SM Editora, R$ 27), com poemas delicados que falavam de flores, amores e vivências com aparente simplicidade. Suas palavra reverberavam não apenas pela sonoridade, mas por comporem tramas intrincadas e reflexivas que permanecem na cabeça do leitor.

Reflexão é o que Maria Semple não exige de seus leitores. A narrativa acelerada de Hoje vai ser diferente (Intrínseca, R$  39,90) não oferece tempo para dúvidas, apenas para risos frequentes com a confusão mental da protagonista, uma dona de casa que deixou sua carreira para cuidar do filho nascido já na maturidade. O desalento diante de um cotidiano agitado e satisfeito apenas pela realização imediata de sonhos de consumo é um tema recorrente na chick lit. A qualidade da literatura leve de Semple está em não se propor a discutir a condição da mulher branca de classe média urbana contemporânea, mas em rir das situações do dia a dia descompromissadamente, mas nem por isso sem um olhar crítico.

Com uma bela epígrafe de Albert Camus, “No meio de um inverno aprendi, finalmente, que havia em mim um verão invencível”, Isabel Allende fala do amor na maturidade, sem deixar de lado a condição política dos latino-americanos no romance Muito além do inverno (Bertrand Brasil, R$ 42,50). Um acidente de carro leva dois professores universitários a juntar forças para ajudar uma jovem guatemalteca que vive ilegalmente em Nova York. Enquanto o casal maduro se apaixona, Allende traça um contundente panorama sobre a repressão política no Chile nos anos 1970, a violência na Guatemala e a situação dos imigrantes ilegais que lutam pela sobrevivência nos Estados Unidos. A escritora decidiu escrever a história sobre os amores tardio depois que se apaixonou por um namorado aos 75 anos.

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