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Um trabalho soberbo Destaque

Um trabalho soberbo

Era uma vez seis vocalistas: três mulheres e três homens. Eles respiram música. E cantam. Muito. Sempre atentas às voltas do mundo, suas vozes clamam para serem escutadas – vocalista adora cantar junto. Sempre. É que eles não aguentam ficar muito tempo sem ouvir as vozes abertas à sonoridade que amam. Muito.

E foi aí que num dia de verão, céu de límpido azul, eles se apresentaram na Mostra Festa da Língua – Cultores e Cantares da Língua Portuguesa, no Rio de Janeiro. Louvando a chance, vibraram como se fosse um gol do Neymar na Copa do Mundo na Rússia.

Àquela altura os seis vocalistas já davam pista de seu pioneirismo: nossos heróis já haviam ensaiado quatro cânticos de candomblé na língua Yorubá. E é aqui que a história ganha um novo herói: o babalaô Pai Marcos de Jagum.

Mas ainda há um segundo herói: o brasileiro filho de alemães Tilo Ploeger. Doidinho pela nossa cultura, com ênfase no candomblé (ele dividiu com Pai Marcos a autoria do livro Os Oráculos de Ifá), o cara deu de querer que o OuroBa registrasse os cânticos num CD. E o OuroBa deu de ensaiar.
Aí Pai Marcos trouxe para a roda nada menos do que 44 cânticos de candomblé na linguagem Yorubá (alguns subdivididos em três movimentos), distribuídos em 17 faixas. "Quanto mais trabalho, melhor!", disse uníssono o OuroBa – não se assuste, leitor, vocalista costuma ser meio tarado por ensaio, mesmo.

E aí coube a eles gravar um CD, bancado e produzido por Ploeger, que é a gênese de uma das vertentes da cultura afro-brasileira, um dos pilares da religiosidade de grande parte do povo brasileiro.

Meses depois nascia um álbum com sons de brasilidade explícita. No encarte, textos de Pai Marcos de Jagum sobre cada entidade; na capa, sobreposto à belíssima foto de Louise Botkay, apenas o nome do grupo: OuroBa.

Célia Vaz (maestrina que liderou os ensaios e mixou o CD), Dalmo Medeiros, Kika Tristão, Marianna Leporace, Symô e Vicente Nucci, vocalistas, arranjadores instrumentistas talentosos, tendo a apoiá-los o percussionista Zero, dividiram solos, instrumentos e arranjos – alguns deles feitos por maestros de fora do OuroBa: um de Paulinho Pauleira, um de Vicente Ribeiro e três de Fernando Leporace.

E aí floriu um som que, ao mesmo tempo em que é fiel à linguagem yorubá, apresenta adaptações suingadas e sofisticadas dos cânticos. Cânticos esses que até hoje inspiram compositores brasileiros.
O CD abre com "Cânticos de Exu", e Pai Marcos assim o apresenta: "Porteiro de Orun, mensageiro, guardião da lei, senhor dos caminhos, a boca que tudo come e os olhos que tudo vê." E assim ele também qualifica cada entidade: Ogum, Oxóssi, Xangô, Ossanhê, Logun Edé, Oxumaré, Oyá, Nanã, Yemanjá, Omolu, Oxum, Ewá, Obá, Ibeji e Oxalá, e mais Alabê, o escolhido pelos orixás para bater o tambor e entoar os cânticos.

Moral da história: o OuroBa realizou um trabalho soberbo que traduz e ilumina o sincretismo religioso do Brasil.

Aí eles se abraçam e seguem cantando felizes vida afora.

Aquiles Rique Reis, integrante do MPB4


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