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A culpa é da imprensa Destaque

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A vilania impera em Última Hora (Record, R$ 44,90), de José Almeida Júnior que venceu o prêmio Sesc 2017 na categoria romance. A falta de caráter é a mola propulsora de uma trama que mistura personagens reais com fictícios para falar de um tema atualíssimo: a manipulação da informação por motivos políticos. De um lado está o ex-ditador Getulio Vargas, que financia a criação do jornal Ultima Hora, de Samuel Wainer, para ser a voz de apoio ao governo, violentamente criticado por toda a imprensa. Do outro, o jornalista e deputado Carlos Lacerda, o vilão deste thriller, à frente da oposição a Vargas, mas apenas uma das figuras capazes de qualquer torpeza para satisfazer seus interesses.

Conduzindo a narrativa está o jornalista Marcos, cujas dificuldades financeiras levam a aceitar, a contragosto, o convite de Wainer para trabalhar no jornal pró-Getulio. Militante comunista, Marcos foi uma das vítimas da perseguição aos opositores à ditadura Vargas, poucos anos antes. A princípio cortejado, depois chantageado por Lacerda, ele tenta se convencer de que permanece fiel aos princípios ideológicos, embora suas atitudes oscilem ao sabor dos acontecimentos – e da necessidade urgente de agradar à recém-conquistada amante, a secretária das redação que mantém uma relação paralela com o dramaturgo Nelson Rodrigues, comentarista esportivo do jornal.

Abordando episódios controversos nas lembranças do militante comunista, como a execução de Elvira Cupello Colônio, a Elza,  determinada por dirigentes do Partido Comunista Brasileiro, em 1935, José de Almeida Júnior explora a dualidade dos personagens, cuja integridade é quase inexistente. Enquanto o oportunista Lacerda dá um tiro no próprio pé para criar comoção pública a seu favor, apresentando-se como vítima de uma tentativa de assassinato, o envolvente Wainer não se acanha em frequentar restaurantes e boates caros, atrasando o salário dos empregados do jornal, quando perde o patrocínio do governo.

A cada capítulo os personagens demolem suas próprias reputações, tendo como traço comum a mais absoluta ausência de escrúpulos. Por força profissional, os jornalistas estão quase sempre na cena de situações que viriam a se tornar fatos históricos, testemunhando o atentado a Lacerda na Rua Tonelero, as consequências do suicídio de Vargas e a estreia da peça A Falecida, de Nelson Rodrigues, nos teatros cariocas. Defensor público, o potiguar José Almeida Júnior já disse que vê semelhanças entre o momento político de 2016 com o da época do suicídio de Getúlio Vargas, quando o discurso anticorrupção foi o eixo do processo de derrubada do governo constituído. Qualquer semelhança com fatos reais não é mera coincidência.

E, sim, é um presentão pra Natal e início de 2017!!!

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