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Natalinas

Papai Noel suava de dar pena, a roupa imprópria para os trópicos colada ao corpo e a barba de algodão começando a virar uma pasta ensebada. Gritava Hô! hô! hô! hô! pelas ruas do Centro, pra lá e pra cá. Hô! hô! hô! hô!, com o saco vermelho às costas, cheio de papel amassado e caixas de presente vazias, o que aumentava mais ainda a sensação insuportável de calor.

As crianças que acompanhavam as mamães nas compras sentavam no colo e puxavam a barba do bom velhinho, que não via a hora de encerrar a via-crucis, com o fim da jornada puxada de nove horas no Hô! hô! hô! hô!, e embarcar no seu buzão com destino a  Brás de Pina.

No fim do dia, Papai Noel – que se chamava Vitalino ou Aureliano – tirou a roupa de guerra, mais a barba e todos os apetrechos, e enfiou tudo no saco de batalha. Recebeu a diária e seguiu pela Rua da Alfândega, pés cheios de calos e dever cumprido.

Não chegou à Central do Brasil. Rendido antes do Campo de Santana, entregou o dinheiro e o saco. Tentou argumentar, que deixassem pelo menos sua farda natalina, indumentária indispensável na hora de ganhar o pão.

O assaltante foi duro, passou ao largo do espírito cristão:

 – Qual é, Noel?! Vou fazer o maior sucesso lá em casa, quando aparecer com essa fantasia. Hô! hô! hô! hô!

* * *

Chegaram em casa com a informação de que o caminhão da Ação Social estava parado na praça, carroceria carregada de brinquedos, farta distribuição de presentes para os necessitados.

O menino largou o time de botão espalhado sobre a mesa, recolheu camiseta e sandálias e partiu na carreira. O moço da Prefeitura disse que bolas de futebol, de couro ou de plástico, não havia mais. Nem carrinhos de madeira ou controle remoto, nem livros ou velocípedes, bonés do Batman, insígnia de comandante, nada.

 – Agora, só tem bonecas que choram e fazem xixi.

 – Me dê. Vou levar para minha irmã.

O menino não tinha irmã para dar a boneca que chora e faz xixi. Mas não ia perder a viagem.

* * *

Barbas e cabelos brancos ele já tinha. Também já andava meio barrigudo, e a rouquidão provocada pelo cigarro e a cachaça ajudavam a voz na hora do Ho, ho, ho, ho! Era só botar a roupa de Papai Noel que ia dar tudo certo.
Vários coroas, muito gordos e meio roucos, já estavam na fila, pegando senhas para a entrevista. Uns dez ou doze seriam escolhidos para representar o bom velhinho nas portas das lojas, fazendo fotos com as crianças e chamando a freguesia.

 – O que você acha do espírito natalino? – perguntou o homem da agência.

 – Acho uma porcaria, mas preciso muito desse emprego.

Expulso da sala, foi fazer o seu Ho, ho, ho, ho no botequim.

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