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O efêmero e o perene na cultura pop Destaque

O efêmero e o perene na cultura pop

Nem adianta espernear: no alto da lista brasileira dos livros mais vendidos  estão autores  que se tornaram célebres por gravarem vídeos e divulgarem opiniões na Internet. A discutível qualidade literária desses influenciadores digitais, que aproveitam plenamente mais que quinze minutos de fama, é capitalizada pelo mercado editorial com biografias ou livros de atividades, destinados a um público adolescente que dificilmente se interessaria por leituras mais sofisticadas do que revistas bem ilustradas – formatos preferenciais de muitas dessas publicações.

Os números alcançados impressionam em tempos de crise, embora provavelmente não haja nenhum long-seller entre os títulos que abordam a trajetória dessas celebridades do tempo em que eram anônimos até o reconhecimento público.  Há cinco anos, Felipe Neto lançou sua primeira autobiografia, Não faz sentido (Casa da Palavra, R$ 39,90), com uma recepção menos retumbante do que a mais recente, que, em 2017, vendeu 110 mil exemplares. Somente em abril, seu A vida por trás das câmeras (Pixel, R$ 19,90) teve mais de 27 mil cópias vendidas. No mesmo período,  As aventuras na Netoland com Luccas Neto (Pixel, R$ 19,90), assinado por seu irmão, Luccas, teve quase 70 mil cópias comercializadas.

A irreverência, traço comum aos youtubers, não se faz tão presente nos textos escritos, cujo sucesso é uma complementação ou certificação do produto bem-sucedido que todos apresentam: os personagens criados em tela. Em 2016, quando a recessão no Brasil mostrou sua força, os livros de colorir, que haviam salvado o mercado editorial no ano anterior, deram lugar às celebridades da internet, todos com vendas expressivas, acima de 100 mil cópias. O preço acessível, a linguagem do dia a dia, somados ao carisma construído pelos autores garante ao consumidor uma leitura rápida, descartável e divertida, cuja obsolescência não chega a ser programada, embora bastante previsível.

Entre as incontáveis formas literárias, o conto, que poderia sagrar-se como a principal leitura nesses tempos de alta velocidade e intensa busca de novidades, mantém sua trajetória a reboque da consagração artística conferida pelo romance. Editores costumam rejeitar livros de contos, a despeito da brevidade do tempo de atenção dos leitores, cada vez menos propensos à concentração exigida por uma leitura extensa e nem sempre tão densa. Até a vetusta Academia Sueca já se rendeu aos contistas, conferindo o Nobel em 2013 à canadense Alice Munro, especializada em histórias relativamente curtas.  A intrigante – para olhos capitalistas ocidentais – história recente da Rússia e os países que compuseram a União Soviética são o tema dos fascinantes contos reunidos em Trilha sonora para o fim dos tempos (Intrínseca, R$  44,90), do americano Anthony Marra.

Apontado como um dos mais promissores autores novos pela crítica especializada, Marra fez do Leste Europeu, onde morou, o ambiente de seu primeiro romance, Uma constelação de fenômenos vitais (Intrínseca, R$ 44,90), que aborda os efeitos da guerra sobre um grupo de pessoas na Chechênia. Os personagens dos contos de Trilha sonora evocam o temor e a sobrevivência sob o regime ditatorial soviético e a adaptação a uma nova nação, mais liberal, politicamente, porém sob o jugo de mafiosos, que controlam o destino da população tão severamente quanto o partido fazia anteriormente.  Uma leitura fácil, rápida, mas que impregna o leitor com a reflexão sobre as mutações sociais e econômicas que norteiam as vidas.

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