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Leitura rápida, sem mistérios

Leitura rápida, sem mistérios

A capacidade humana de leitura deriva da simples combinação de uma boa narrativa com o interesse do leitor. Livro chato é abandonado ou tem sua leitura arrastada por décadas. A fórmula existe desde que Guttemberg popularizou a edição de textos – a maioria de baixa qualidade literária, mas extremamente atraente para o público. A quantidade de leitura nem sempre corresponde à qualidade das escolhas do leitor. Nunca se leu tanto quanto hoje em dia, nunca se publicou tanto – apesar da substancial crise do mercado editorial brasileiro, que diz ter encolhido apenas 21% em volume no último ano – e jamais se viu tanta gente lendo bobagens como na atualidade.

Dos milhões de novos volumes que o mundo distribui em títulos anualmente, seguramente 80% não valem a derrubada de árvores para sua produção. A imensa maioria utilizava papel jornal, mas hoje boa parte consegue acabamentos mais sofisticados, principalmente depois do fenômeno Cinquenta tons de cinza (Intrínseca, R$ 39,90), que popularizou a chamada pornografia leve  e deu um mau nome ao erotismo, vulgarizado a ponto de parecer fotonovela.
Existe outra categoria de ficção que deságua em prateleiras de livrarias embora merecesse ser burilada antes de chegar ao público: é o chamado livro seguinte do autor de sucesso.  Caso de Uma estranha em casa (Record, R$ 39,90), da canadense Shari Lapena, que obteve uma boa recepção com o thriller O casal que mora ao lado (Record, R$ 42,90), lançado dois anos antes. Lapena segue o veio aberto por algumas das atuais rainhas do crime, entre elas Gyllian Flynn e Paula Hawkins: a desconstrução total dos personagens ao longo da narrativa, algo nem tão novo assim na literatura policial, mas, ultimamente, uma das tendências em voga. Lapena volta a situar sua ação num subúrbio da América do Norte, cujas vidas aparentemente sem graça dos moradores escondem segredos. De tão previsível, chega a ser constrangedor, apesar de algumas pequenas surpresas surgirem ao longo da narrativa. Um casamento feliz é posto em risco pelo passado de uma dona de casa desmemoriada, vítima de um sério acidente de automóvel. O marido fiel também tem esqueletos no armário, enquanto a vizinha,  melhor amiga e confidente, nutre mais inveja do que amizade pelo casal.

Apesar de pequenas falhas, provavelmente em decorrência da pressão dos editores para que a autora produzisse rapidamente um novo sucesso, Uma estranha em casa é leitura rapidíssima, que não toma mais do que duas horas. Resta desejar que as próximas criações de Shari Lapena mereçam um apuro maior antes de chegarem ao mercado.

Alguns títulos não amadureceram – e não apenas pela negligência do autor, mas pela indefinição do público ao qual se dirige, outra das funestas consequências de Cinquenta tons de cinza no mercado. Há escritores que criam livros como se fossem fanfic para a Internet, o berço que prontamente acolheu E. L. James. A linguagem é difusa, corriqueira, informal como a de uma conversa sem grandes consequências, com vocabulário limitado e impreciso. O excesso de diálogos do thriller O casamento (Faro Editorial, R$  49,90), do jornalista Victor Bonini, o tornam quase um romance infanto-juvenil. Embora divertido e bem urdido, aposta na desconstrução de personagens como elemento-chave de uma narrativa pautada em referências à cultura pop. Faltou a mão de um editor no texto para fazer crescer o mistério e delinear a maldade que impera no coração dos homens.

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