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O reconhecimento da mágoa

O reconhecimento da mágoa

Encerrada a Copa do Mundo, o ano brasileiro recomeça, embora 2018 ainda nos reserve eleições em que apenas as incertezas delineiam o cenário. É sobre o desalento e rompimento de expectativas que tratam o inglês Ian McEwan em Meu livro violeta (Companhia das Letras, R$ 44,90), e o italiano Domenico Starnone em  Laços (Todavia, R$ 44,90), em duas abordagens distintas. O conto de McEwan fala de inveja, vaidade e amizade; o romance de Starnone discute ressentimento, desespero e casamento.

Enquanto McEwan faz do reconhecimento público a razão da existência de dois escritores amigos desde a juventude, Starnone constrói um ambiente claustrofóbico para situar uma família triturada pela desconfiança. O “livro violeta”  é a edição discreta do texto plagiado pelo escritor menos bem-sucedido de um original do amigo festejado pela crítica. Sem qualquer vestígio de culpa pela fraude, o narrador busca o sucesso a qualquer custo. Além do conto, o volume traz Por você, libreto criado por McEwan para uma ópera do compositor Michael Berkeley, que também traz personagens duros e centrados em si próprios.  Apaixonada por um maestro vaidosíssimo, mulherengo e completamente egoísta, Maria, a empregada polonesa da família, encontra a fórmula perfeita para prendê-lo a ela.

O egoísmo salta em cada página de Laços, a história de um núcleo familiar que se mantém unido, embora o afeto tenha se dilacerado ao longo dos anos. Ao lançar o contundente romance em 2014, o napolitano Starnone, ganhador do Prêmio Stregha em 2001, e um escritor muito popular na Itália, acendeu as suspeitas de que poderia ser o autor das obras de Elena Ferrante, pseudônimo de quem assina a celebrada Tetralogia de Nápoles, iniciada com A amiga genial (Biblioteca Azul, R$ 44,90). As semelhanças temáticas  – Dias de Abandono (, o primeiro romance de Ferrante tem como protagonista uma mulher, mãe de dois filhos, deixada pelo marido; em Laços um homem vai viver com a amante, desfazendo o casamento, sem conseguir manter a intimidade com o casal de filhos – levaram o jornal Corriere della Sera, em outubro de 2016, a publicar gráfico da empresa suíça OrphAnalytics, especializada em detectar autoria e plágios de textos, demonstrando o quanto a produção de Starnone se parece com a de Ferrante (https://www.corriere.it/cultura/16_ottobre_11/elena-ferrante-domenico-starnone-studio-statistico-42530fee-8fe0-11e6-a48d-80f1fedf0a64.shtml).

A análise veio a público duas semanas depois que o jornal Il Sole 24 Ore publicou a reportagem do jornalista Claudio Gatti, que apontava a tradutora Anita Raja, casada com Starnone, como a verdadeira Elena Ferrante. Entre os indícios estaria a evolução patrimonial da família, o que corresponderia ao sucesso das vendas dos livros de Ferrante.

Domenico Starnone nega ser Elena Ferrante e, em entrevistas, já disse que Laços, que foi adaptado por ele mesmo para o teatro e ganhará uma versão cinematográfica, trata de uma “falsa reconciliação” de um casal. O desalento dos personagens, presente ao longo da narrativa, é doloroso e descrito de maneira que arrebata o leitor. Distanciando-se da polêmica sobre a autoria, Laços toca cruelmente no conformismo a que tantos se entregam para levar a vida adiante e na animosidade disfarçada que envolve relações duradouras, sólidas e amarguradas.

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