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Essa gente

Essa gente

O primeiro conto de O Sol na cabeça (Companhia das Letras, R$ 34,90) é um teste de resistência para o leitor tradicional. A oralidade das ruas cariocas narra uma ida à praia de personagens que tradicionalmente são interpretados por figurantes na maioria das  obras que retratam a cidade. Pegar o ritmo e desvendar aquela linguagem composta de gírias e do total desrespeito à gramática é um exercício que pode desanimar quem se aventura a ingressar no universo apresentado por Geovani Martins, um escritor jovem, nascido distante do Centro e da área mais privilegiada do Rio de Janeiro, e hoje morador do Vidigal, um bairro onde 80% dos imóveis compõem uma favela voltada para o mar.

No segundo dos treze contos do livro, a forma já obedece às regras da língua culta, e aproximando cada vez mais a narrativa do estilo urbano consagrado por Rubem Fonseca, com a violência fazendo parte do cotidiano dos personagens. Vez por outra, a fala de parte da população volta a apresentar a trama protagonizada por quem dificilmente se integrará aos moradores do “asfalto”, mesmo que geográfica e politicamente dividam a região “rica” da cidade.  São meninos ou homens jovens, que consomem drogas sem grande temor do efeito no organismo, com a certeza da imortalidade que a juventude confere, cuidando, apenas, de evitar confrontos com policiais, os agentes da ordem que só vale para quem não nasceu na casta superior de um república latino-americana.  Os bem-nascidos também surgem, vez por outra, como na pele do universitário que, interpelado por um policial ao comprar drogas no morro, não aceita a voz de prisão, por ser filho de um desembargador – e acaba liberado, quase ouvindo um pedido de desculpas.

Sem descrever características físicas dos personagens que cruzam a cidade para pichar prédios, comprar maconha longe de casa e trabalhar em subempregos, quando não diretamente com traficantes, Geovani tem sido saudado como uma nova voz da literatura por retratar a vida que o Brasil quer desconhecer desde sempre. Há pouco mais de vinte anos, Cidade de Deus, de Paulo Lins, iniciava o ciclo dos favela movies, contando a  ascensão do tráfico de drogas no cenário urbano brasileiro. O sol na cabeça segue a trilha:  já teve os direitos adquiridos para o cinema. Entremeando os falares do carioca, Geovani Martins mostra a vida de quem raramente chega a ser retratado nas seções policiais dos noticiários da atualidade, o grupo a que as classes média e alta se referem como “essa gente”.

Uma das atrações da última Festa Literária de Paraty (Flip), assim como Geovani Martins, a franco-marroquina Leila Slimani também conta a história de uma “invisível” em Canção de Ninar (Tusquets, R$  41,90) – a babá que assassina duas crianças pequenas sob seus cuidados.  Ao contrário dos personagens de Geovani, Louise, a babá, não desperta a menor simpatia, mesmo quando a narrativa toma seu ponto de vista. Os patrões parisienses, charmosos, jovens e belos, são mostrados com a ambivalência da classe média: reconhecem o excelente trabalho de Louise, acreditam tratá-la como “igual”, sem ter qualquer  interesse por sua vida particular.

Louise aos poucos se revela ao leitor, vindo de um lar desmantelado da classe trabalhadora, extremamente correta e submissa diante de qualquer posição hierárquica.  Mais que buscar compreender o choque da reunião de realidades socioculturais distanciadas, Leila Slimani, que ganhou o Prêmio Goncourt em 2016, compõe magistralmente o incômodo e a inadequação desses encontros em cada capítulo.


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