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Esses moços românticos Destaque

Esses moços românticos

Um é Elio, o outro Paolo/Paul.  Jovens intelectualizados, bissexuais, apaixonados, eles buscam no passado a construção de cada romance atual, em duas narrativas envolventes como um profundo caso amoroso, assinadas pelo egípcio André Aciman. O personagem Elio ficou famoso com a adaptação cinematográfica de Me chame pelo seu nome (Intrínseca, R$ 39,90), que deu ao veterano James Ivory o Oscar de melhor roteiro adaptado neste ano.  O protagonista dos contos sequenciais de Variações Enigma (Intrínseca, R$  44,90) reproduz as dúvidas e o encantamento de Elio pelos amores ao longo da vida, com um fôlego de adolescente, misturado à melancolia da maturidade.

É difícil não associar os dois protagonistas de Aciman. No romance, Elio vive a primeira grande paixão de sua vida pelo estudante de pós-graduação americano que se hospeda na  casa de veraneio de sua família numa cidadezinha interiorana da Itália. No primeiro conto de Variações Enigma,  Paolo recorda a primeira grande paixão de sua vida por um marceneiro da ilha italiana onde sua família tinha uma casa de veraneio. Os pais dos dois personagens são homens sofisticados e tranquilos, e o retorno de Paolo à ilha parece resgatar situações que sequer são sugeridas, mas compreendidas, em Me chame pelo seu nome.  Nos outros contos, Paolo se transforma em Paul, um universitário e, posteriormente, editor em Nova York, convivendo com o mesmo grupo sofisticado de amigos, que se reúnem em jantares para falar de música clássica, arte e literatura desde a juventude.  Nesse grupo, casais se formam e se separam, sem, no entanto, deixar de lado a amizade. Paul se envolve com homens e mulheres, em entregas de intensidade igual. O arrebatamento sentimental dos personagens se fortalece graças ao estilo de Aciman, que só deve ser lido no contexto da obra. Trechos destacados – “Nós éramos um do outro, mas tínhamos passado tanto tempo separados que agora éramos de outras pessoas. Posseiros, nada mais que posseiros, eram os verdadeiros requerentes de nossos corações.” –  soam como letra de bolero, cujo significado só faz sentido para os envolvidos por enredos amorosos melodramáticos.

Se Aciman representa a volta do herói romântico, o argentino Pedro Mairal fala do amor nos tempos modernos com uma crueza que remonta a Henry Miller.  Lucas Pereyra, o narrador de A uruguaia (Todavia, R$ 44,90) viaja para Montevidéu, onde vai retirar o adiantamento de 15 mil dólares por um livro e evitar pagar impostos que incidiriam sobre a quantia, se recebida na Argentina. Pretende também reencontrar uma jovem que conheceu num festival literário. O escritor quarentão com problemas financeiros, casado e pai de um menino idealiza a bela Magali Guerra, a uruguaia de 28 anos, enquanto busca sobreviver num universo sufocantemente contemporâneo. Ao longo da viagem, as recordações do primeiro encontro com Magali se misturam às lembranças do cotidiano da família, do temor que assola qualquer pai quando o filho cai doente, da crise pessoal e do casamento, e da vivência num país em constantes reviravoltas econômicas. A sensibilidade artística de Pereyra não mascara o macho latino-americano heterossexual angustiado pela meia-idade, de fácil identificação entre os homens dos países vizinhos – não faltam referências a futebol, um dos principais traços da masculinidade, tanto quanto o nacionalismo, no Cone Sul.   Sem a delicadeza de Aciman, Mairal também fala de amor e das paixões que oferecem o escape da rotina maçante e massacrante que se  experimenta em qualquer canto do planeta. 


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