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As crianças, o sexo e a guerra Destaque

As crianças, o sexo e a guerra

A pauta literária desta semana – a educação sexual das crianças – veio de um candidato a presidente da República que alardeia seu conservadorismo à brasileira, aquele machismo “só de brincadeirinha”, anterior aos tempos politicamente corretos.  Entre as preocupações desse conservador está o incentivo a práticas sexuais diversas e precoces a partir da leitura de Aparelho sexual & Cia – Um guia inusitado para crianças descoladas (Companhia das Letras, R$ 37,90, esgotado), da escritora francesa Hélène Bruller e do cartunista suíço Zep.

O livro, que não foi comprado nem distribuído pelo Ministério da Educação em 2011, quando o governo brasileiro tentou implantar o projeto Escola sem Homofobia, teve 29 exemplares adquiridos pela Biblioteca Nacional. Uma quantidade pouco significativa diante das vendas de cerca de 1,5 milhão de cópias de Aparelho sexual & Cia. Traduzido em dez idiomas, mas fora de catálogo no Brasil, um exemplar custa, atualmente, entre R$ 160 e R$ 230 em sebos virtuais.

Enquanto a Companhia das Letras recomendava a leitura para jovens acima de 11 anos, Hélène Bruller, em entrevista ao jornal El País, acha que essa indicação cabe aos pais, pois depende da maturidade da criança. A intenção do livro é informar sobre sexo com naturalidade, discutindo masturbação, namoro, beijo, contracepção, entre outros tópicos. Algo que a inglesa Babette Cole fazia em livros como Mamãe botou um ovo e  Cabelinhos nuns lugares engraçados (ambos da editora Ática e encontrados apenas em sebos por preços acima de 70 reais). O primeiro, lançado em 1993 no Reino Unido, traduzido para 72 idiomas, vendeu em torno de 3 milhões de exemplares no mundo inteiro,  trata da reprodução pelo olhar das crianças. O segundo, sobre puberdade.

Babette Cole, que morreu em 2017, provocou polêmica nos anos 1990 ao falar sobre sexo de maneira bem-humorada com crianças. Houve protestos em livrarias de algumas cidades da Escócia contra ilustrações de espermatozoides nas capas de Mamãe botou um ovo. Ainda hoje não faltam críticas de blogueiros preocupados com o que seria uma visão do sexo como forma de diversão, sem responsabilidade ou restrições, com caricaturas mostrando casais em diferentes posições sexuais. Ainda assim, a obra de Babette foi bem recebida por especialistas em literatura infantil no Brasil, com indicação de leitura a partir de 6 anos de idade. Um de seus grandes sucessos, Mamãe nunca me contou (Ática, R$ 67), aborda a atividade sexual de adultos, os afetos de homossexuais e a dificuldade de uma criança em identificar gênero pela aparência de cada um.

Para muitos adultos, aparentemente, sexo é uma prática a ser descoberta por autodidatas, sem qualquer tipo de orientação fora a repressão que coíba a atividade não procriadora. Esses talvez considerem mais a adequada a leitura por crianças do doloroso Querido mundo (BestSeller, R$ 29,90), os relatos da menina Bana Alabed, hoje com 9 anos, sobre a guerra na Síria. Bana ficou conhecida por publicar frases pedindo a paz ou contando o sofrimento de sua família em Aleppo, onde nasceu. Por ser muito jovem, sua credibilidade como observadora sempre foi posta em dúvida, mas a mãe da menina, Fathima, professora que estudou jornalismo, diz que ensinou a filha a escrever em inglês. A sofisticação do vocabulário nos tuites foi bastante questionada. O livro, no qual conta sua convivência com a guerra e a fuga da família para a Turquia, onde vivem hoje, traz depoimentos de Bana entremeados por cartas da mãe, que deu à luz dois meninos em plena guerra.



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