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Mentiras inadequadas Destaque

Mentiras inadequadas

Momento de crise parece ser a palavra de ordem da vida brasileira – e não é de hoje. Uma república que manquitola desde sua origem criou a tradição de esconder da opinião pública a verdade – sobre a saúde dos postulantes ou eleitos para o Executivo, quanto ao uso de dinheiro particular para proveito dos administradores e dos que os cercam,  ou ainda acerca das práticas políticas em geral. A ocultação da verdade  é inerente à política, acreditam os jornalistas Chico Otávio e Cristina Tardáguila, autores de Você foi enganado – Mentiras, exageros e contradições dos últimos presidentes do Brasil (Intrínseca, R$ 39,90), que acaba de chegar às livrarias.

A escolha de oito situações acontecidas ao longo dos últimos 40 anos não exclui a mentira como um hábito cultivado pelos políticos que se fizeram no território nacional.
Há cerca de 100 anos, em 1922, Artur Bernardes assume a presidência da República e decreta estado de sítio, impedindo a divulgação de informações com censura à imprensa. Em 1937, Getulio Vargas, a pretexto de uma jamais provada tentativa de  tomada do poder pelos comunistas, decretou o Estado Novo, permanecendo à frente do País até 1945. O comunismo também serviu para garantir a simpatia da classe média em apoio aos militares que, em 1964, depuseram o presidente João Goulart.

Ao longo da ditadura militar, encerrada em 1985, não faltaram casos que nunca chegaram a ser divulgados devido ao controle férreo dos veículos de comunicação. Chico e Cristina se detêm, no entanto, em episódios bastante conhecidos como a explosão da bomba durante um show no estacionamento do Riocentro, em 1981, e a doença do presidente eleito Tancredo Neves, em 1985. O controle de preços de José Sarney, em 1986, o confisco das poupanças, em 1990, por Fernando Collor, a desvalorização da moeda em 1998 por Fernando Henrique Cardoso, o combate à corrupção prometido por Lula, em 2002, a falta de apoio de banqueiros a Dilma Roussef, em 2014, e a rejeição de Michel Temer ao impeachment da presidente eleita, em 2015, são também dissecados – das declarações à comprovação da falta de correspondência com os fatos.

A desestrutura política e a sensação de inadequação permanente do indivíduo são os eixos paralelos de A noite da espera (Companhia das Letras, R$ 39,90), de Milton Hatoum. Lançado há cerca de um ano, o romance – o primeiro da trilogia O lugar mais sombrio – acompanha o adolescente Martin, que, em 1968, vai morar em Brasília, acompanhando o pai, um engenheiro ressentido pela rejeição da mulher, que o abandona por outro homem. As cartas da mãe, que não tem recursos para  manter o filho em sua nova estrutura familiar, dão alento a Martin enquanto ele faz amizades entre jovens “filhos do poder”, um grupo de estudantes da Universidade de Brasília com posições contrárias ao governo. Martin é mais observador do que participante das produções culturais politizadas dos amigos, responsáveis por apoiá-lo afetivamente diante de um pai sempre distante e politicamente alinhado aos dirigentes militares. Embora contrário aos desmandos ditatoriais, Martin jamais se envolve diretamente com ações de protesto ou confrontos diretos contra o poder. Como boa parte da população, ao não se alinhar com qualquer corrente, ele sobrevive. É em Paris, por volta de 1977, que ele começa a recordar seus anos de estudante de arquitetura em Brasília e a escrever sua história, lembrando-se das incursões policiais na faculdade e a tensão de uma época de profundas incertezas.

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