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Sobrevivência em águas turbulentas Destaque

Sobrevivência em águas turbulentas

A pavana é a música lenta e grave que acompanhava uma dança popular na Europa no século XVI. Em indonésio “pawana” significa vento, brisa. Mas em Pawana (Cosac Naify, R$ 22,50), novela de J.M.G. Le Clézio, a palavra é o nome para  baleia, na língua dos indígenas nativos da ilha de Nantucket, na Nova Inglaterra, na costa do estado norte-americano de Massachussets. Maior porto internacional do comércio baleeiro no século XIX, Nantucket, “o lugar onde encalhou a primeira baleia morta”, segundo Herman Melville, é a terra firme dos que partem no Pequod em busca de Moby Dick (Nova Fronteira, 69,90). As referências ao clássico de Melville são elementos de  Pawana, que condensa em menos de 50 páginas a melancolia de quem se sabe responsável pela destruição do planeta.

Em Pawana, os pescadores saem de Nantucket  para contornar o continente americano e alcançar, na costa da Califórnia, uma baía onde as baleias se encontram para reproduzir ou dar à luz. Desbravadores, eles iniciam a matança de baleias numa região fechada, sem o desgaste da caça em mar aberto. Nessa época, cardumes de mamíferos já haviam abandonado as águas de Nantucket, onde foi criado o jovem John, que, na velhice, relata as lembranças do santuário destruído. Outra visão da sistemática perseguição aos animais é  do capitão da baleeira, Charles Melville Scammon. Da mesma forma que John, Scammon conclui que o extermínio dos majestosos animais levará ao fim da vida na Terra.

A inspiração para a história da obsessão de Ahab em perseguir até a morte Moby Dick  vem de duas fontes reais – as narrativas sobre uma baleia branca, apelidada de Mocha Dick, que durante anos escapou dos caçadores  na região próxima à ilha de Mocha, na costa do Chile, e o naufrágio do baleeiro Essex, em 1820. Resgatados depois de três meses no mar em botes salva-vidas, os tripulantes do Essex sobreviveram alimentando-se dos corpos de companheiros mortos (naturalmente ou assassinados) ao longo da viagem. Em No coração do mar (Companhia das Letras, R$  64,90), que deu ao historiador Nathaniel Philbrick o National Book Award em não-ficção de 2000, a tragédia do Essex é narrada, mencionando, mas não apontando como causa do desastre, a perseguição a uma baleia no Pacífico Sul. Os relatos da época contam que a baleia havia destruído o navio, uma possibilidade real, porém não comprovada.

Herman Melville só visitou Nantucket alguns anos depois da publicação de Moby Dick. No último dia de sua estada na ilha, o escritor se encontrou com o capitão do Essex, George Pollard, alguém sem importância para os moradores locais, mas segundo  Melville “o mais impressionante dos homens,  totalmente despretensioso, até humilde” que conhecera. O sucesso de Moby Dick só aconteceu por volta de 1920, quando D.H. Lawrence escreveu artigos afirmando que aquele era o maior romance da literatura mundial.  Melville, que aos vinte anos fez parte da tripulação de um baleeiro, mistura ficção e informações genuínas sobre a caça e a comercialização dos produtos extraídos da baleia.  Mestre em temas humanistas, ele ainda lançaria Bartleby, o escrivão – Uma história de Wall Street ( Autêntica, R$ 22,70), outra obra-prima que teve como base sua experiência em escritórios novaiorquinos.




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