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Boa música em família Destaque

Era uma vez duas famílias que se encontraram e associaram seus dotes musicais. Um dos maiores êxitos dessa união é Meia Volta (Acari Records), CD que reuniu a cantora e violonista Luísa Lacerda ao compositor e cantor Miguel Rabello.

Pois Miguel é filho do pianista Cristóvão Bastos e da cantora Amélia Rabello, que é irmã da cavaquinista Luciana Rabello, que é casada com o poeta Paulo César Pinheiro, os dois que, por sua vez, são pais de Julião Rabello. Já Luísa foi aluna de Amélia Rabello, que, além de ser tia do Julião, é irmã do saudoso e inesquecível violonista Rafael Rabello.

Ao enumerar uma parte das relações de amizade e parentesco entre os Rabello e os Pinheiro, veio-me à caixola a letra de “Quadrilha”, música de Chico Buarque inspirada no poema de mesmo nome de Carlos Drummond de Andrade: “(...) Carlos amava Dora que amava Lia/ Que amava Lea/ Que amava Paulo/ Que amava Juca/ Que amava Dora/ Que amava/ Carlos / Que amava toda a quadrilha”.

E assim, a “quadrilha” que ama a música, que ama o samba e que ama o choro se uniu, e nasceram obras irresistíveis e belas.

O álbum Meia Volta tem quinze canções de Miguel – doze com letras de Paulo César Pinheiro, duas de Roberto Didio e uma de André Lacerda. Emolduradas pelas vozes de Luísa e Miguel, a beleza pôs-se à flor da pele.

Os arranjos de Cristóvão Bastos são de tirar o chapéu – o que dá prazer redobrado a quem os ouve. Da primeira à última faixa, tudo faz sentido, pois as músicas se deixam seduzir por quem as acaricia e as abriga: os sopros de Rui Alvim (clarinete e sax alto), Aquiles Moraes (trompete e flugelhorn), Tomaz Retz (flauta e flautim), Everson Moraes (trombone) e de Joana Saraiva (sax alto).

Como um regional, Ana Rabello (cavaquinho), Julião Pinheiro (sete cordas) – olha a “quadrilha” aí de novo –, e mais Tiago Souza (bandolim), somado a Pedro Franco (baixo), Flora Milito e Magno Julio (percussão) e o violonista João Camarero deram tempero carioca às músicas.

Tudo começa com Luísa dividindo o canto com Miguel em “Arauto” (dele e Paulinho Pinheiro). Alternando momentos arritmos com outros ritmados, suas vozes parecem nascidas uma para a outra. E as melodias de Miguel são qualquer coisa próxima da genialidade.

Aí vem “Ronda de Cantador” (MR e PCP) e reforça a primeira impressão. Luísa e Miguel novamente dividem o canto. Simplesmente, sem arroubos canoros desnecessários, violões supimpas às mãos, eles fazem música digna de ser ouvida com sorrisos de aprovação.

E Paulinho Pinheiro se multiplica em letras plenas de musicalidade, enriquecidas pelas melodias. Sortudo é o jovem compositor a quem o poeta doa palavras. Sintam só os versos de “O Grande Artista”, dele e Miguel Rabello: “Quem vê na arte a beleza/ Tem compulsão de chorar/ É porque o grande artista/ Faz ficar bela a tristeza (...)”. Acompanhado apenas pelo violino de Carol Panesi e pelo piano de Cristóvão Bastos, Miguel arrasa.

Tamanha beleza nos devolve a esperança de ver um Brasil melhor.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4


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