Menu

Enquanto embalo minha biblioteca Destaque

divulgação divulgação

A cultura não ocupa espaço,  repetia minha mãe quando nos mudamos para um apartamento maior, onde os livros teriam seu próprio canto, que pomposamente chamávamos de biblioteca. Ao longo dos quase trinta anos, os livros acabaram invadindo outros cômodos. Eram em torno de cinco mil volumes, que, depois da morte de meus pais, acabei juntando aos meus. Como havia muitas duplicatas – impossível viver sem um exemplar próprio de Crônica de uma morte anunciada  -, boa parte foi passada aos amigos. O que não me interessava de forma alguma (a autobiografia de Roberto Campos, por exemplo) seguiu para sebos. Juntando os dois acervos, por muito tempo mantive cerca de três mil volumes comigo.

 

A biblioteca hoje tem algo como 2,5 mil livros. Segundo o gerente de uma empresa de mudanças, caberiam em vinte caixas. Já fechei 35 caixotes e as prateleiras ainda ostentam, seguramente, uns 900 volumes.  Separo o que não quero mais, descubro quantos tenho repetidos. Um amigo saiu com cinco novelas do Raymond Chandler – havia cinco novas edições, mas eu me esquecera das antigas, empoeiradas, cobertas de fungos. Algumas duplicatas vão para o novo endereço, entre elas O caminho de Guermantes, com uma dedicatória de meu pai, em versos (qualquer declaração de amor é ridícula ), no Natal de 1956, para a “melhor amiga”, minha mãe. Dois anos e meio depois, estavam casados. Mamãe achava Proust chatíssimo, mas era louca por Faulkner. Encontrei um Sartoris também com dedicatória de Papai para ela. Esse fica. 

 

Alguns livros de minha infância – uma coleção de mitologia variada –  e todos os da Condessa de Ségur vão para meus afilhados – que não sei se vão apreciar como eu, criança de outra época.  As netas ganharão os infantis que eram de meus filhos. Parte das obras de Agatha Christie, em papel jornal, que comprei, estudante, em banca, seguirá para uma creche ou biblioteca da Maré ou do Vidigal.  

 

Essa viagem sentimental era mais do que esperada. Escolhi Alberto Manguel para meu guia nesse processo. Estou lendo no Kindle Mientras embalo mi biblioteca,  de Manguel, ainda sem versão brasileira (ah, Companhia das Letras, esqueça a crise, faça uma tiragem modesta, faça!). No primeiro dos onze textos, Manguel, atualmente diretor da Biblioteca Nacional da Argentina, conta que decidiu fixar-se no interior da França ao encontrar uma propriedade com um celeiro parcialmente destruído, grande o bastante para abrigar seus 35 mil livros.  “Eu pensava que, uma vez que os livros haviam encontrado seu lugar, eu encontraria o meu. Estava equivocado”, diz Manguel, que aproveita a mudança para refletir sobre sua relação pessoal com a literatura.

 

Enquanto embalo (mais bonito que empacotar, já que embalar, em português, também é abraçar, acarinhar, cantar, ninar) minha biblioteca, sinto vontade de reler boa parte dela, mas temo que a segunda leitura mude a empolgação por cada história. Não é difícil encaixotar livros. É quase um ato amoroso, de reencontro, de sorrisos, de entendimento de cada dedicatória, o momento vivido com amigos, os presentes de ex-amores, o colo de minha mãe me explicando que Flash Gordon vivia “no futuro” (tenho HQs clássicas), meu pai afirmando que sem ler Pavese ninguém poderia se considerar leitor (discordo, mas compreendo), a empolgação de meus tios e de meus pais lendo, todos ao mesmo tempo, Cem Anos de Solidão, meu tio Edson disputando comigo a edição especial da Tragédia da Rua das Flores assim que foi descoberto o manuscrito inédito de Eça de Queiroz, o mês em que três exemplares novos de O Falcão Maltês chegaram em casa, porque não tínhamos o livro, e todos compraram para presentear uns aos outros, a coleção de espátulas para abrir páginas que vinham fechadas em tantas edições antigas. 

 

Onde quer que eu monte casa, carrego esses alicerces de minha vida.   

 

voltar ao topo