Menu
Olga de Mello

Olga de Mello

Jornalista, carioca por nascimento e insistência, Olga de Mello considera cultura gênero de primeira necessidade. Consumidora voraz de vários generos literários, ela compartilha com os leitores do ACONTECE NA CIDADE as novidades do mercado editorial.

URL do site: http://olgademello.acontecenacidade.com.br

Leituras para o início do resto da vida

A literatura ocidental fez do jovem intrépido seu personagem favorito, desde os órfãos pobres que saiam mundo afora para procurar emprego, em contos de fada, ou na pele do provinciano  D’Artagnan, que, aos 18 anos, deixa a Gasconha com o propósito de integrar a Guarda Real, juntando-se aos Três Mosqueteiros.  Em 1951, J.D. Salinger trouxe um novo enfoque para a juventude, dando voz às inseguranças da adolescência através de  Holden Caufield, o protagonista do Apanhador no campo de centeio.  Hoje, adolescentes irritados e irritantes ocupam páginas e páginas de livros destinados exatamente para eles, reproduzindo a imagem estabelecida para os jovens pós-Holden Caufield: donos de si, angustiados e com pouca vontade de integrar-se ao mundo adulto. 

A barbárie de cada dia

A cada dia, 13 mulheres são assassinadas no Brasil. Das 4.539 mulheres assassinadas no País em 2017, 1.133 foram vítimas de feminicídio. Diariamente são registrados 600 casos de violência doméstica, perfazendo mais de 200 mil ao ano no Brasil, que teve notificados mais de 60 mil casos de estupro em 2017. A cultura da misoginia brasileira tem sido mostrada mais em estudos antropológicos e demográficos do que na literatura. Da Argentina, onde uma mulher é morta a cada 30 horas, vem o vigoroso Garotas Mortas (Todavia, R$  44,90), de Selva Almada,  que parte dos assassinatos de três jovens nos anos 1980 para falar sobre a banalização da violência contra a mulher ocidental.

Essa gente

O primeiro conto de O Sol na cabeça (Companhia das Letras, R$ 34,90) é um teste de resistência para o leitor tradicional. A oralidade das ruas cariocas narra uma ida à praia de personagens que tradicionalmente são interpretados por figurantes na maioria das  obras que retratam a cidade. Pegar o ritmo e desvendar aquela linguagem composta de gírias e do total desrespeito à gramática é um exercício que pode desanimar quem se aventura a ingressar no universo apresentado por Geovani Martins, um escritor jovem, nascido distante do Centro e da área mais privilegiada do Rio de Janeiro, e hoje morador do Vidigal, um bairro onde 80% dos imóveis compõem uma favela voltada para o mar.

Tsundoku, uma eterna missão

Acontece com todo mundo que tem vício de leitura no mundo inteiro – e por isso, os japoneses criaram a palavra “tsundoku” para denominar o hábito de adquirir um livro, folhear, ler um pouquinho  e empilhar junto a outros, também deixados de lado com o firme propósito de serem degustados em outra ocasião.  A única maneira de desmanchar o tsundoku é lendo cada volume. O tsundoku não se forma com aqueles clássicos reservados para serem apreciados na aposentadoria, como Em busca do tempo perdido, Ulisses e Os Buddenbrook. O tsundoku se compõe a partir da indolência e da certeza de que chegará o momento certo de mergulhar naquelas páginas.

Assinar este feed RSS