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A força que tem o choro PDF Imprimir E-mail
Por Aquiles Rique Reis   
28 de junho de 2007

Sample ImageO choro está para o brasileiro como o tango está para o argentino. Seja ele composto e tocado no século XVIII ou em sua forma dos dias atuais, o chorinho aplaina nosso dia-a-dia. Sai década, entra década, lá está ele despertando a atenção de músicos veteranos e iniciantes. Tradicionais ou modernos, cada chorão namora a música à maneira de seu instrumento, sempre reverenciador à singeleza e à picardia com que ela foi criada pelos mestres destes e daqueles tempos.

As rodas de choro são manifestações democráticas de tocar e de ouvir música. Nela, todo bom chorão é sempre bem-vindo. Cada ouvinte é acatado Quase um ritual, nesses encontros o que vale é o reconhecimento do chorinho e o aplauso aos intérpretes. Chora-se pelo gosto de tocá-lo, pelo prazer de escutá-lo. O silêncio predomina, permite-se apenas o soar de cordas, sopros e peles.

O chorinho atravessou o tempo amparado em sua própria força, apenas nela. Música que passa de uma geração à outra, graças aos que percebem o que ela lhes diz à alma, o que ela lhes traduz do estado de espírito, identificando-os. É encantador ver jovens músicos, todos virtuosos, bandolinistas, violonistas ágeis no manuseio das seis ou das sete cordas de seus instrumentos, pandeiristas, flautistas, cavaquinistas, clarinetistas e outros "istas" mais, tocando choro apenas por tocar. Amadores tocam porque querem, porque amam fazê-lo, e, assim sendo, ainda que alguns não se dêem conta, propagam o choro e o tornam vivo fogo a aquecer almas novas e antigas abertas ao seu delírio musical.

Por esse amor à música, Pixinguinha e Ernesto Nazareth vivem em Hamilton de Holanda e em Paulo Sérgio Santos; Luiz Americano e Dilermando Reis vivem em Raphael Rabelo e em Yamandú Costa; Garoto e Copinha vivem em Maurício Carrilho e em Pedro Amorim; Meira e Baden Powell vivem em Luciana Rabelo e em Zé da Velha; Radamés Gnattali e Tom Jobim vivem em Jorge Simas e em Johnny Alf; Patápio Silva e Jacob do Bandolim vivem no Quinteto Madeira de Vento e em Paulinho da Viola... E todos juntos vivem o choro. Vivam eles, música e músico, tradutores da chorona e indecifrável emoção que ri e choraminga a um só e interminável tempo.

Reconhecedor dessa paixão brasileira pelo choro, Marcus Vinícius de Andrade, diretor artístico da gravadora CPC-UMES, criou a coleção O Choro e sua História - Izaías e Israel entre amigos. Três CDs, retrospectiva do choro desde 1870 até hoje, vêm numa caixa na qual não faltam informações sobre a história do gênero. Mais do que isso, nos encartes dos três discos revela-se a história de vida de autores e interpretes que criaram e glorificaram o chorinho. Cada disco traz ao final uma "choradinha": três faixas bônus que reproduzem gravações originais de obras-primas do gênero e somam-se às 39 outras faixas distribuídas pelos três CDs.

Os dois anfitriões, Izaías (bandolim) e Israel (violão de 6 e 7 cordas) Bueno de Almeida, músicos reverenciados pelo virtuosismo, conseguiram a façanha de levar para o estúdio de gravação a aura que costuma encobrir os encontros de chorões, dêem-se eles no fundo de um quintal ou sob a sombra de uma mangueira. Para os iniciantes e para os que acham que de choro já viram e ouviram tudo, a audição de cada um dos CDs revelará que, por mais que uns saibam de menos e outros saibam demais, sempre se desvendará enormes surpresas no tocar de um bom choro. O chorinho é música clássica tocada com pé no chão, calo na mão, alma no céu.

O Choro e sua História - Izaías e Israel entre amigos é obra para ouvir nos momentos em que a vida parece ter-se arruinado. Ouvindo-a, saberemos que para tudo há jeito se reavivarmo-nos na força do choro - que atravessa tempestades sem naufragar e se revigora -, ainda que não saibamos ao certo por quê. Meio como quando estamos certos de que perdemos algo para sempre e dormimos e acordamos com a esperança renovada no sol que nos cobre a cabeça e reproduz esperança.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4 e autor de O Gogó de Aquiles, ed. A Girafa. Seus textos são publicados semanalmente no Acontece na  no Diário do Comércio (ACSP), Meio Norte (Teresina), A Gazeta (Cuiabá), Jornal da Cidade (Poços de Caldas) e Brazilian Voice (EUA).
No rádio, sempre às segundas-feiras, das 15h às 16h, "O Gogo de Aquiles" vai muito bem, obrigado.
Você poderá escutá-lo (no Rio de Janeiro) sintonizando diretamente na Rádio Roquete Pinto, ou (fora do Rio) na internet: www.fm94.rj.gov.br .

 


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